quinta-feira, 12 de abril de 2012

Formação litúrgica para Leitores - 2ª parte: Leitor, porta-voz do Senhor


Formação litúrgica para Leitores - 2ª parte

 Leitor: porta-voz do Senhor
 
Um dia, na Sinagoga de Nazaré, alguém se levantou no meio da assembleia para fazer a leitura. Era Jesus. Deram-lhe o livro do profeta Isaías. Ele abriu-o e encontrou a passagem da Escritura onde estava escrito: “O Espírito do Senhor está sobre mim...” Depois, fechou o livro, devolveu-o ao encarregado e sentou-se” (Lc 4,16-20). Continuam ser esses os gestos dos leitores hoje: estar na assembleia, levantar-se, abrir o livro, fazer a leitura e sentar-se. Não falta sequer o cumprimento da palavra de Isaías, dado que por detrás do leitor que proclama o texto... é o Espírito Santo que fala.
Tal é o mistério e a grandeza do ministério litúrgico do Leitor: permitir que o Espírito do Senhor fale por meio dele e fale antes de tudo a ele, lendo em sua vida a Palavra que irá anunciar aos seus irmãos.
            O bom Leitor é aquele que se torna o primeiro a deixar-se converter por aquilo que lê. Durante a leitura, ele recorda em seu coração a realidade vivida pela Palavra que seus lábios pronunciam. Santo Agostinho nos dá um exemplo ao comentar o versículo de um salmo: “‘Meus Deus, salvai-me do pecador, do homem iníquo e violento’. Seja quem for que proclame este versículo não pode deixar de pensar nas suas próprias experiências. Quer ouça estas palavras da boca do Leitor, quer as pronuncie ele mesmo, pensa nos pequenos acontecimentos de sua vida pessoal, de tal inimigo, em tal outro que o queria maltratar, ou ainda outro que redigiu contra si um documento difamatório. Por isso podemos vê-lo proclamar com emoção. A fisionomia de quem lê adapta-se ao texto lido, e por vezes até vemos lágrimas a correr-lhe pela face abaixo. Suspira a cada palavra, e para quem se deixa levar por aparências, este homem parece entregar-se verdadeiramente e por inteiro à Palavra do Senhor: vede como suspira, como suspira profundamente! Poe-se a proclamar com toda força, com toda a alma, a proclamar com a voz, com o rosto, do fundo do seu coração: ‘Meu Deus, salvai-me do pecador, do homem iníquo e violento’, e ao dizer isto, vai pensando em seu próprio inimigo, e vai experimentando a proteção do Altíssimo”.
Um outro exemplo de como a Palavra de Deus é viva e eficaz por si mesma, mas dependente do envolvimento existencial do leitor com a Palavra que irá proclamar, encontramos em Neemias 8, 1-10:
“Todo o povo se reuniu então, como um só homem, na praça que ficava diante da porta da Água, e pediu a Esdras, o escriba (Leitor), que trouxesse o livro da Lei de Moisés, que o Senhor havia prescrito a Israel. Esdras trouxe o livro diante da assembléia de homens, mulheres e de todos que fossem capazes de compreender. Esdras fez então a leitura da lei desde a manhã até o meio-dia; todos escutavam atentamente a leitura. Esdras subiu ao estrado que haviam construído para a ocasião, abriu o livro à vista de todo o povo; ele estava, com efeito, elevado acima da multidão. Quando o Leitor abriu o livro, todo o povo levantou-se. Esdras bendisse o Senhor, o grande Deus; ao que todo o povo respondeu, levantando as mãos: Amém! Amém! Depois inclinaram-se e prostraram-se diante do Senhor com a face por terra. Depois o governador Neemias, Esdras, sacerdote e escriba, e os levitas que instruíam o povo, disseram a toda a multidão: Este é um dia de festa consagrado ao Senhor, nosso Deus; não haja nem aflição, nem lágrimas. Porque todos choravam ao ouvir as palavras da lei. Neemias disse-lhes: Ide para as vossas casas, fazei um bom jantar, tomai bebidas doces, e reparti com aqueles que nada têm pronto; porque este dia é um dia de festa consagrado ao nosso Senhor; não haja tristeza, porque a alegria do Senhor será a vossa força”.
Por tudo que foi apresentado, cada comunidade há de procurar as pessoas com mais capacidade para ler e diligentemente prepará-las para este ministério. Técnica vocal, dicção correta, adequada entonação para cada momento da leitura são imprescindíveis. Todavia os fiéis desenvolverão no seu coração um afeto vivo pelas Sagradas Escrituras – e mais, pelo próprio Senhor que a eles fala – se não faltar aos Leitores a experiência do mistério que anunciarão nas santas assembleias.

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