segunda-feira, 28 de maio de 2012

Uso de Tochas e Incenso na procissão do Evangeliário


Luzes e incenso
Ao comentar a solenização da proclamação do Evangelho, nota M.Denis-Boulet: “Todas as liturgias do Oriente e do Ocidente fazem preceder a leitura de uma procissão: as luzes e o incenso honram o deslocamento do livro, como na procissão de entrada honravam o pontífice, e pelo mesmo motivo: um e outro representam Jesus Cristo”.

As velas que acompanham a procissão do Evangelho

Tradição bíblica
Na Tenda de Reunião (que outrora havia sido o santuário itinerante por ocasião da estada no deserto do Êxodo) acendia-se uma lâmpada para queimar “diante do Senhor” (Ex 27,20-21; cf. Lv 24,2-4). Ali encontrava-se também o candelabro de ouro, de sete braços (Ex 25,31-40; cf. 37,17-24), que mais tarde tornou-se o próprio símbolo de Israel.
No Apocalipse, João conservou as imagens da lâmpada e do candelabro, embora mudando seu simbolismo. Assim, contempla, na visão inaugural, o Cristo ressuscitado, tendo em sua mão direita “os sete candelabros de ouro, que são as sete Igrejas”, às quais vai dirigir suas cartas. Ele vê também as sete lâmpadas de fogo queimarem diante do trono erguido no céu. São, explica ele, “os sete Espíritos de Deus”.

Tradição litúrgica
Na antiga liturgia romana, as tochas ou velas constituem muito naturalmente uma escolta de honra. Sete tochas acompanhavam a entrada solene do bispo e do Evangeliário. Essas sete tochas ou velas formarão uma coroa de honra em torno do altar; depois, reduzidas a seis (por causa da simetria), serão colocadas sobre o altar. Os dois castiçais que subsistiram para os dois acólitos do rito romano são um testemunho desse antigo esplendor da procissão do Evangeliário.
A luz é também símbolo de Deus. Esse simbolismo culmina no Novo Testamento com a afirmação de Jesus: “Eu sou a luz do mundo” (Jo 8,12). Por ocasião da festa dos Tabernáculos, instalavam-se no templo de Jerusalém, no átrio das mulheres, quatro imensos candelabros, e seu fulgor era tão grande, dizia-se, que iluminava todo o interior da Cidade santa. É nesse contexto que Jesus afirma que Ele é não somente a luz do seu povo, mas ainda a luz do mundo.
Na procissão do Evangeliário, o simbolismo da luz é múltiplo.

·        A luz presta honra à dignidade do Evangeliário e, através dele, venera o Cristo.
·        Simboliza o próprio Cristo que o Evangelho proclama “luz do mundo”.
·        Lembra também, sobretudo no círio pascal, a Ressurreição do Cristo. É à luz do Ressuscitado que se proclama o Evangelho.
·        Significa enfim a espera do Dia eterno em que a Igreja inteira será transfigurada pela luz do Cordeiro (Ap 22,23).
Contemplando a luz e ouvindo as palavras de Cristo, os cristãos oram para que sua própria vida se torne Evangelho e cada um deles, como e com o Cristo, “luz do mundo” (Mt 5,14).

O incenso

Tradição bíblica
A exemplo das antigas religiões orientais, Israel utilizou largamente o incenso em seu culto. No Templo de Salomão, o altar dos perfumes se erguia diante do Santo dos Santos. Aí se fazia queimar o incenso duas vezes ao dia, à tarde e pela manhã. Era o símbolo da oração que sobe para o trono de Deus como sacrifício de louvor.
Esse altar de ouro é transportado ao céu para a liturgia celeste conforme o Apocalipse. Vê-se aí o anjo colocado a serviço do altar dos perfumes a oferecer ao mesmo tempo os perfumes e as orações dos santos sobre o altar de  ouro colocado diante do trono do céu. Ali se contemplam também os vinte e quatro Anciãos – sem dúvida os justos do Antigo Testamento – acompanhados pela harpa, cantarem o cântico novo e oferecerem as taças cheias de perfumes, que são as orações dos santos (Ap 5,8 e 8,3-4).

Tradição litúrgica
Com um passado tão rico sob o plano bíblico, incenso terá facilmente encontrado porta aberta para entrar no culto cristão. Mas o fato de que os cultos idólatras o utilizavam largamente pôde suscitar na consciência cristã desagradáveis lembranças. Quanto ao Oriente, o primeiro testemunho que temos parece ser no século IV. O incenso ali era utilizado precisamente por ocasião da proclamação do Evangelho. Ao descrever a liturgia da vigília dominical na Igreja da Ressurreição em Jerusalém, a peregrina Etéria conta: “São trazidos os turíbulos à gruta da Anastasis e toda a basílica transborda de aromas. Então, de pé, além do gradil, o bispo toma o Evangelho, aproxima-se da porta e lê, ele mesmo, a ressurreição do senhor”.
No ocidente, é preciso esperar os Ordines Romani dos séculos VII e VIII para ver mencionado o uso do incenso. É levado diante do papa e por ocasião da procissão do Evangelho.
Levando o incenso a frente do Evangeliário, a comunidade quer significar que prepara à Palavra de Jesus um caminho de perfume. Ao incensar o próprio livro, ela significa a veneração e a oração que lhe oferece. Do mesmo modo que os Magos, quando encontraram o Menino-Rei, se prostraram diante dele num gesto de adoração, e lhe ofereceram ouro, incenso e mirra, assim a comunidade cristã que encontrou o Messias-Salvador no Evangelho oferece-lhe o incenso de sua oração e de sua adoração.

Sugestões pastorais
Luzes
O simbolismo da luz é fácil de se perceber. A procissão com as luminárias é fácil de se realizar. A cada Domingo, dia do Ressuscitado e festa semanal dos cristãos dever-se-ia aproveitar. Enriquecerá com uma nota alegre e festiva a proclamação do Evangelho. Jerônimo (Ϯ 419/420) dá o seguinte testemunho para sua época: “Em todas as igrejas do Oriente, quando se deve ler o Evangelho, acendem-se as luzes, mesmo que o sol já esteja brilhando. Não é para afugentar as trevas, mas para dar um sinal de alegria”. Esse sinal de alegria é sempre válido para o nosso tempo.
Quanto ao círio pascal, perto do ambão, lembrará à comunidade que o anúncio do Evangelho se faz à luz da Ressurreição. Só o Ressuscitado pode abrir nossos corações à compreensão da Palavra.

Incenso
A oferta de incenso é considerada em alta estima nas liturgias orientais com também nos países do Extremo Oriente. Ela aí encontra de modo pleno o seu lugar. Não se deve forçar uma explicação forçada sobre o seu significado porque, se não houver uma secreta conivência entre a comunidade e os sinais que ela utiliza, cai-se facilmente na emboscado do ritualismo. Um sinal é tanto mais eloquente quando não há necessidade de falar para explicá-lo, quando ele é compreendido instintivamente.

É inútil acrescentar que, se se utiliza o incenso, é preciso fazê-lo com generosidade. Que o turíbulo fumegue com a alegria, que o fogo seja generoso, que o incenso seja bem perfumado e se irradie sobre a assembléia!  Um insignificante grão de incenso colocado sobre um carvão preguiçoso e agonizante não resolve nada. Se o rito for sem vida, não tem mais força para falar.

terça-feira, 22 de maio de 2012

O canto do "Aleluia" no momento da aclamação a Cristo no Evangelho


O "aleluia" referente à procissão do Evangelho

 












Para acompanhar a procissão do Evangelho, a liturgia propõe o canto do Aleluia (ou de uma outra aclamação durante a Quaresma) e versículos, anunciando o Evangelho. Alleluia é a adaptação do hebraico Halelu-Yah que significa Louvai-Yah(vé). Por seu caráter alegre e triunfante, o Aleluia evoca o canto da Igreja resgatada. Constitui-se como uma alegre aclamação pascal a Cristo, e acompanha a procissão solene do Evangeliário e a vinda do Senhor pela Palavra.

Tradição Bíblica
Esse convite ao louvor lê-se nos salmos ditos aleluiáicos – trata-se dos Sl 104-106(105-107), 110-113(111-114), 115-117(116-118), 134-135(135-136), 145(146)-150 – entre os quais fazem parte do Hallel – 112-117(113-118) – que o Cristo recitou na última ceia. O aleluia não precisa, pois, mendigar o direito de entrar na liturgia da missa: ele aí se encontra “em casa” desde a primeira eucaristia, e foi o Senhor mesmo quem o introduziu.

Em sua Nínive de tristeza para onde havia sido deportado, Tobias o Ancião não cessa de sonhar com uma Jerusalém onde as próprias casas cantarão aleluia.
            “As portas de Jerusalém farão ressoar cânticos de alegria,
            e todas as suas casas dirão: Aleluia! Bendito seja o Deus de Israel!” (Tb 13,17).

No Novo Testamento, lê-se o Aleluia no fim do livro do Apocalipse, no canto de triunfo dos resgatados da terra. Aleluia é como que o refrão que dá ritmo à aclamação:
            “Ouvi como que a voz de uma imensa multidão no céu que clamava:
            Aleluia!
            A salvação, a glória e o poder são do nosso Deus.
            Sim, verdadeiros e justos são seus julgamentos.
            Aleluia! (...)
Os vinte e quatro anciões e os quatro seres vivos se prostraram e adoraram o Deus que está sentado no trono, dizendo: Amém! Aleluia!. Ouvi depois como que o rumor de uma grande multidão, semelhante ao fragor das águas torrenciais e ao ribombar de fortes trovões, aclamando:
Aleluia! Pois reina o Senhor nosso Deus, o Todo-poderoso.
            Alegremo-nos e exultemos, demos-lhe glória,
            pois aí estão as núpcias do Cordeiro” (Ap 19,1-4.6).

Tradição Litúrgica
É, portanto, a partir da liturgia do céu que se relaciona o Aleluia da aclamação ao Evangelho. Cabe a música, à composição melódica, criar um clima de esplendor e exultação, tornando o canto do aleluia uma verdadeira aclamação a Cristo que triunfalmente passa por entre os seus para anunciar-lhes Palavra de vida eterna. A procissão, as velas, o incenso, as flores, as danças, tudo isso de nada serviria se a música não fosse festiva e alegre.
Segundo pe. Gelineau, grande liturgista musical do início da reforma litúrgica, o Aleluia é “uma aclamação pascal ao Verbo de Deus, um “Viva Deus”; um grito que resume todo louvor. É um brado de vitória e salvação, grito de admiração e alegria, grito de fé e de amor, grito de ação de graças do povo eternamente salvo”[1].
O anúncio do Evangelho, por sua importância em relação às outras leituras, merece uma distinção especial: toda a assembleia põe-se de pé e canta exaltando a Cristo presente que vai falar, enquanto o diácono ou padre, com o livro dos Evangelhos erguido solenemente se encaminha processionalmente (acompanhado por acólitos ou coroinhas com velas e, eventualmente turíbulo) para deixar Cristo falar, ou seja, proclamar o Evangelho da salvação. Na quaresma, as demais formas de aclamação que substituem o aleluia desempenham uma função idêntica.

Sugestões pastorais[2]
Quem canta? É um canto iniciado por todos. O coral ou o solista executa o versículo após o Aleluia e o povo repete a aclamação. Para solenizar mais, é possível ao coral cantar a mais vozes na resposta do aleluia, sobrepondo-se ao canto do povo para enriquecê-lo harmonicamente e dar um sentido de plenitude. O ritmo pode ser mais marcado, por ser uma procissão e uma aclamação. O clima geral que o canto deve despertar será de expectativa, prontidão... pois o Senhor vai falar.
Qualquer aclamação deve ser sempre um canto vibrante e alegre, ainda mais em se tratando da aclamação pascal do aleluia. A música, a melodia e instrumentos deverá expressar o entusiasmo de um povo que dá um “viva” a seu herói, de uma multidão que “vibra” torcendo num estádio pelo time de seu coração, à semelhança dos grandes salmos de aclamação e de louvor a Deus-Rei-Salvador.
Os instrumentos tem grande papel neste canto para comunicar exultação, alegria, entusiasmo, plenitude. Se no salmo responsorial os instrumentos tinham como função apenas de sustentação, levando à meditação, aqui seu papel é preponderante. O canto e a melodia deverá ser forte (até fortíssimo!) quando o povo canta; menos forte quando o solista ou o coral canta o refrão.
É um dos cantos mais breves da missa. Canta-se durante a procissão do Evangelho. Se sobrar tempo, os instrumentos poderão preencher o tempo com um poslúdio bem feito.


[1] GELINEAU, Joseph. Canto e música no culto cristão – princípios, leis e aplicações. Tradução de Maria Luiza Amarante. Petrópolis: Vozes, 1968.
[2] CNBB, Estudo sobre os cantos da missa. Coleção “Estudos da CNBB nº 12), São Paulo, Paulinas, 1978. Para aprofundamento das características do canto do Aleluia, convém retomar as páginas 58-71 e observar os exemplos apresentados.

terça-feira, 15 de maio de 2012

O uso do Evangeliário - 2ª parte


A procissão do Evangelho   
Eis que se adianta a procissão do Santo Evangelho


Entre as procissões que se realizam durante a missa, a do Evangelho deveria ser a mais festiva e a mais alegre. Com efeito, enquanto a procissão de entrada, a das oferendas e a da comunhão, têm todas por finalidade satisfazer a uma necessidade prática (formar a assembléia, levar as oferendas ao altar, receber a comunhão), a procissão do Evangelho tem por primeira e principal finalidade a glorificação do Cristo na sua Palavra e a aclamação da sua presença. Eis aqui o ponto culminante da celebração da Palavra. Conforme o antigo Ordo da liturgia galicana (VI século), o clero cantava: “Portas, levantai vossos frontões! Elevai-vos, portas eternas! Entre o Senhor todo-poderoso,o Rei da glória” (Sl 23(24),7). E o Ordo do VI século explica: “Eis que se adianta a procissão do Santo Evangelho, como o poderio do Cristo triunfando da morte, em meio aos cânticos acima citados e dos sete candelabros (que são os sete dons do Espírito Santo, ou ainda as lâmpadas da Lei antiga, crucificadas pelo mistério da cruz). (O diácono) sobe ao ambão, como o Cristo à cátedra do reino do Pai, e dali proclama os dons da vida, enquanto os clérigos aclamam: Glória a vós, Senhor!”.
Tais palavras são tiradas dos ritos referentes à liturgia galicana do VI século, mas podem iluminar sobremaneira nossos olhos quando celebrarmos os nossos ritos atuais. Os ritos mudaram, mas o sentido permanece.

O rito do Evangelho hoje
Eis o que hoje prescreve a liturgia romana para o diácono em nossa liturgia atual:
“Enquanto se canta o Aleluia ou outro canto (na quaresma), se for usado o incenso, o diácono o oferece ao sacerdote para que o coloque. Em seguida, inclinado diante do sacerdote, pede a bênção, dizendo em voz baixa. O diácono responde: Amém, em seguida, se o livro dos Evangelhos estiver sobre o altar, ele o toma e se dirige ao ambão, precedido pelos ministros, se houver, que carregam os castiçais e, se se julgar oportuno, o incenso. Do ambão, saúda o povo, incensa o livro e proclama o Evangelho”.

Quando a missa é celebrada sem diácono, o ritual é fundamentalmente o mesmo, com as necessárias adaptações: “Enquanto se canta o Aleluia ou outro canto, o sacerdote..., com as mãos postas, e inclinado diante do altar, reza em voz baixa... Então, se o livro dos Evangelhos está sobre o altar, ele o toma e, precedido pelos ministros – que podem levar o incenso e as velas - , dirige-se ao ambão” (IGMR 93-94). 

Sugestões pastorais
O coração do rito, se considerado no que tem de mais simples, mas perfeitamente significativo, assim se apresenta: o sacerdote toma o Evangeliário, palavra do Cristo, de cima do altar, que representa o Cristo, e o leva ao ambão, lugar da Palavra de Deus, enquanto se aclama o Senhor. Parece-nos que essa procissão, que conserva a transparência de seu significado em todas as circunstâncias, deveria ser realizada em todas as missas dominicais. Mesmo que o espaço exíguo não permita uma procissão solene (embora nossos templos devessem ser construídos levando em consideração todos os ritos celebrativos, logo, também o da procissão do Evangelho), dever-se-ia ao menos fazer a ostensio Evangelii, isto é, mostrar o livro dos Evangelhos: o celebrante toma o livro de cima do altar, mostra-o à assembléia que aclama o Cristo com o canto dos homens novos: o Aleluia. Essa ostensio é semelhante à da hóstia consagrada e à do cálice, por ocasião da consagração. Mesmo em situações as mais humildes, o rito conserva seu luminoso significado. É esse coração do rito que o “Diretório das missas para crianças” sugere realizar quando convida as crianças a participarem da procissão do Evangeliário: “A participação ao menos de algumas crianças na procissão do Evangeliário assinala mais claramente a presença do Cristo anunciando a palavra a seu povo”.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

O uso do Evangeliário - 1ª parte


Exposição do Evangeliário sobre o altar


O rito
O Missal prevê a deposição do Evangeliário sobre o altar antes da proclamação do Evangelho. Essa deposição equivale praticamente a uma “entronização” (semelhante à “exposição” do Santíssimo Sacramento sobre o altar). Duas soluções são propostas:
1.      O Evangeliário é deposto sobre o altar antes da celebração eucarística.
2.      É deposto no início da celebração pelo leitor ou o diácono que o transportaram durante a procissão de entrada. (IGMR 79, 82 c, 84 e 129). Preferível.

A melhor solução sob o ponto de vista do plano litúrgico e que tem a preferência do missal é a seguinte: a comunidade dispõe de um Lecionário e de um Evangeliário; o Lecionário é colocado no ambão antes da missa (IGMR 80); o Evangeliário é  levado em procissão pelo diácono ou, em sua falta, pelo primeiro leitor e colocado sobre o altar, de onde será tirado para a proclamação do Evangelho pelo próprio diácono ou pelo presidente da celebração.

Seu significado
Qual o significado desse rito? Essa deposição sobre o altar confere ao Evangeliário uma honra excepcional. Na tradição litúrgica, o altar é, com efeito:

“O sinal do próprio Cristo, o lugar onde se realizam os mistérios da salvação e como que o centro da assembleia dos fiéis, ao qual se deve o maior respeito. O centro da ação de graças que se realiza plenamente pela Eucaristia” (IGMR 259)

O novo ritual para a consagração das igrejas resume o ensinamento da tradição cristã nessa máxima: Altare Christus est, “o altar é o Cristo”. Outrossim, até os séculos IX e X, somente a Eucaristia e o Evangeliário gozavam do privilégio de serem depositados sobre o altar. Conforme antigos rituais de consagração dos altares, o bispo dispunha os inícios dos quatro Evangelhos sobre o altar. Sabe-se também que, por ocasião dos Concílios, o Evangeliário era e é solenemente entronizado sobre o altar, como que para significar que o Cristo em pessoa presidia a assembleia reunida em seu nome. A respeito do terceiro concílio ecumênico de Éfeso, em 431, Cirilo de Alexandria atesta:

            “O santo Sínodo, reunido na igreja dedicada a Maria, instituiu de certo modo o Cristo como membro e cabeça do Concílio. Com efeito, o venerável Evangelho foi colocado num trono”.

O significado desses ritos é claro. Quando o diácono ou sacerdote tira o Evangeliário de cima do altar, sinal do Cristo, dá a entender de modo magnífico que as palavras que vai proclamar não são suas, mas de Jesus. “O Cristo fala, diz o Concílio (SC 7), enquanto se lêem as santas Escrituras”. É essa afirmação que o rito de exposição do Evangelho salienta majestosamente.
O altar é também o centro da assembléia celebrante. É pois nesse centro que se enraíza a palavra de Jesus. É desse centro que ela se irradia sobre a comunidade.
Particularmente significativa é a exposição do Evangelho antes da celebração: os fiéis, ao entrarem na igreja, são assim de certo modo acolhidos pelo Cristo. Nesse espírito é que certas comunidades conservam o Evangeliário entronizado no altar, mesmo fora das ocasiões de celebração. Seria excelente, que esse costume se generalizasse no nosso rito romano, cumprindo inclusive um mandato de nosso atual pontífice Bento XVI: “Os espaços sagrados, mesmo fora da ação litúrgica, revistam-se de eloqüência, apresentando o mistério cristão relacionado com a Palavra de Deus, dando-se atenção especial ao ambão, enquanto local litúrgico donde serão proclamadas as leituras. Além disso, os padres sinodais sugerem que, nas igrejas, haja um local de honra onde se possa colocar a Sagrada Escritura mesmo fora da celebração. Realmente é bom que o livro onde está contida a palavra de Deus tenha dentro do templo cristão um lugar visível e de honra, mas sem tirar a centralidade que compete ao sacrário que contém o santíssimo sacramento” (VD 68). Uma alternativa seria ter junto à entrada principal de nossas Igrejas um espaço estável, digno e belo que expusesse o Evangeliário diuturnamente, e deste local transladado pelo diácono ou pelo leitor no início das celebrações dominicais até o altar.
Esse significado é tanto mais eloquente quanto, conforme a antiga tradição, só se depõe sobre o altar o livro dos Evangelhos e o Corpo eucarístico do Senhor. Logo, com muito maior razão é preciso retirar do altar os objetos que nada tem a fazer ali, como as galhetas de água e vinho com a bandeja para lavar as mãos, o manustérgio, etc.
Segue o testemunho de padre Lucien Diens: “Encontrava-me em Assiout, no Médio Egito, para um encontro bíblico. O bispo, de rito copta, convidou-me um dia para visitar sua catedral. Aceitei de boa vontade. Era uma igreja de belas proporções, sem ênfase arquitetônica. Quando entrávamos e nos aproximavamos do altar, o bispo me disse com delicadeza: “Para a visita, o senhor pode tirar seus sapatos”. Eu já o havia tirado discretamente, porque sabia que os cristãos coptas só entram no santuário com os pés descalços. Entramos então, demos uma volta ao redor do altar, com reverência. Um menino, carregando uma cruz, nos precedia, como se fosse uma celebração litúrgica. Saimos depois do santuário, caminhando de costas, pois, conforme a tradição copta, o padre, por deferência, tem sempre sua face voltada para o altar, nunca as costas. Não quero dizer que é preciso “coptizar” nossa liturgia romana. Ela tem sua beleza particular, entretecida de sobriedade e limpidez. Mas podemos deixar-nos instruir com utilidade pelo espírito das liturgias orientais. Em contato com elas, podemos vivificar a veneração devida ao altar, sinal do Cristo e centro da comunidade celebrante. É claro que o simbolismo tão expressivo do Evangeliário sobre o altar só exprime seu forte significado, quando o simbolismo do próprio altar é posto em foco em primeiro lugar”.

sábado, 5 de maio de 2012

Presença real de Cristo na Eucaristia e na Palavra - enfoque antropológico


Presença real de Cristo na Eucaristia e na Palavra
Enfoque antropológico

Após conceituarmos teológica e biblicamente a presença real de Cristo na Palavra, e real e substancial na Eucaristia, convém ampliar a reflexão com as implicações antropológicas destas verdades de fé, pois, embora reais, tais presenças não são realmente visíveis a nós, seres humanos.
Os seres humanos são compostos de cinco sentidos, e necessariamente se utilizam destes para estabelecerem relações com as realidades que os cercam. Com relação a Deus, essencialmente “puro espírito”, não é diferente, e por isso existe a Liturgia: uma forma de experimentar algo que é real, mas não imediatamente sensorial. Logo, para se tornar sensível, a presença de Deus se utiliza da mediação dos sinais sacramentais – realidades visíveis de uma presença real, mas invisível.
Este pressuposto antropológico se faz necessário para qualquer sacramento, inclusive e sobretudo para a Eucaristia, que, para tornar-se substancial, necessita da mediação de duas realidades humanas que são transubstancializadas: pão que se torna corpo, vinho que se torna sangue do Senhor. Visivelmente continua sendo pão, mas pela fé, um Pão tornado Corpo do Senhor. Se vê-Lo (o Senhor Ressuscitado) no pão consagrado é exigente, enxergá-Lo no “nada” tornar-se-ia impensável para nossa condição humana necessitada de sinais que “visibilizem o invisível”.
Diante do exposto, conclui-se que em relação à Eucaristia tem-se maior facilidade para se experimentar o mistério da presença real do Senhor devido ao sinal existente do Pão Consagrado. Conclui-se igualmente a dificuldade de se experimentar o mistério da presença real do Senhor na Palavra celebrada pela falta de algum sinal que, mesmo não sendo substancial, torne visível a realidade da presença espiritual, mística, mas real de Cristo junto aos seus durante a celebração.
Urge buscar meios de tornar tangível a realidade espiritual da presença do Senhor na Palavra. Chegamos então, ao coração de nosso estudo: antropologicamente faz-se necessário a  existência de sinais que nos ajudem a experimentar a presença real do Senhor enquanto se celebra sua presença na Palavra. E estes sinais já existem em nossos ritos celebrativos. Basta-nos descobri-los não como ritos periféricos, decorativos, exigências (seja por parte da Comissão Diocesana ou por organismos superiores da Igreja), mas como aquilo que de fato eles são: sinais tangíveis da presença de Cristo. Em outras palavras: em cada rito que será especificado a seguir, como, por exemplo, a procissão do Evangeliário, deverá a assembleia celebrativa afirmar, mesmo que silenciosamente, no coração, ao ver o Livro dos Evangelhos sendo trasportado até a mesa  da Palavra: “Eu vi o Senhor!”, a exemplo da primeira comunidade logo após a ressurreição (cf. Jo 21,25).

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Presença real de Cristo na Eucaristia e na Palavra - 3ª parte, análise bíblica


Presença real de Cristo na Eucaristia e na Palavra a partir do relato bíblico dos “Discípulos de Emaús”

            Toda a reflexão acima sobre a presença real de Cristo na Palavra e real e substancialmente presente na Eucaristia é iluminada sobejamente pelo relato bíblico dos “Discípulos de Emaús” (Lc 24,13-35). A comunidade peregrina está desanimada: o Senhor está morto e, com ele, todas as aspirações religiosas e até mesmo humanas dos discípulos também desfalecem – faltam-lhes o princípio vital. O Espírito que tornou Cristo um ser vivente para todo o sempre ainda não os havia tocado.
Justamente diante  de todo cansaço da vida, do desânimo em relação ao presente e a falta de expectativa e esperança em relação ao futuro... o Senhor Ressuscitado realmente se faz presente entre eles (cumprindo sua promessa: “onde dois ou mais estão reunidos em meu nome eu estarei no meio deles” Mt 18,20).
            Esta mesma presença real de Cristo no meio da comunidade reunida em oração se torna ainda mais evidente quando Ele começa a refletir a Palavra. Sinal eloquente deste real presença é o sentimento de esperança diante do futuro e de ânimo renovado frente ao presente, simbolizado pelos “corações aquecidos”. É Cristo que fala quando se lêem as Escrituras, seja na experiência de Emaús, seja em cada encontro celebrativo ao redor de sua Palavra; e quando Ele fala, tudo muda, tudo se renova – os corações se aquecem!
Não sem razão a Constituição Conciliar Sacrosanctum Concilium, sobre a Sagrada Liturgia, assim se expressa: “Para realizar tão grande obra de salvação, Cristo está sempre presente na sua igreja, especialmente nas ações litúrgicas. Está presente no sacrifício da Missa, quer na pessoa do ministro – “O que se oferece agora pelo ministério sacerdotal é o mesmo que se ofereceu na Cruz” – quer e sobretudo sob as espécies eucarísticas. Está presente com o seu dinamismo nos Sacramentos, de modo que, quando alguém batiza, é o próprio Cristo que batiza. Está presente na sua Palavra, pois é Ele que fala ao ser lida na Igreja a Sagrada Escritura. Está presente, enfim, quando a Igreja reza e canta, Ele que prometeu: “Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles” (Mt. 18,20).
Tal presença real de Cristo em sua Igreja torna-se substancial pela “Fração do Pão” – um dos primeiros modos usados pelos cristãos para designar a Eucaristia. Recorrendo ao dois amigos que partiam para Emaús, a presença de Cristo até então sensível e real apenas pela partilha da Palavra torna-se substancial quando há a partilha do Pão. Esta presença é de tal forma substancial que a própria realidade corpórea do Senhor se desfaz da visão humana para dar lugar ao Pão partido, consagrado, que de ora em diante será a equivalência de sua existência terrena: a mesma substância do seu Ser está presente no Pão, logo, não há mais porquê ser visto humanamente.  
Refeitos pela presença real, substancial e vivente do Mestre, os discípulos se erguem e agora correm para anunciar a boa nova. A consequência do contato com o Ressuscitado, seja realmente presente na oração comum e na Palavra celebrada, seja real e substancialmente presente na Eucaristia, faz com que o discípulo se torne um missionário da esperança.  Contudo, ressalta-se que uma presença não anula a outra, mas complementam-se. Sem a Palavra que aquece os corações quando celebrada, contemplada e orada em comunidade, a Eucaristia não alcança a plenitude de sua eficácia, mesmo com toda a substancialidade do Senhor presente.

Ao final desta postagem, concluimos que a presença real de Cristo "na Eucaristia" é "visivel" por meio do sinal sensível do pão e do vinho consagrados. Hoje, Jesus não caminha visivelmente conosco durante a "Liturgia da Palavra", como caminhou com os discípulos de Emaús, mas nem por isso sua presença é menos real quando celebramos sua Palavra. Todavia, nós, seres humanos, temos necessidade de vê-Lo presente, como vemo-LO na Eucaristia. Como torná-Lo visível? Quais os meios temos à nossa disposição para que a presença real de Cristo na Palavra "toque" aqueles que a celebram? Dê sua opinião...

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Presença real de Cristo na Eucaristia e na Palavra - 2ª parte


Presença real do Cristo na Palavra e na Eucaristia


O mistério da Palavra assim como o mistério da Eucaristia levam, os dois, ao mistério do Cristo Jesus. Eles têm a mesma importância no sentido de que ambos são epifania do Ressuscitado. É com prazer que Jerônimo (+ 419/420) se empenha em lançar a identificação entre Palavra e Eucaristia quando explica: “Quanto a mim, penso que o Evangelho é o corpo do Cristo e que a Sagrada Escritura é sua doutrina. Quando o Senhor fala em comer sua carne e beber seu sangue, é certo que fala do mistério (da Eucaristia). Entretanto seu verdadeiro corpo e seu verdadeiro sangue são (também) a Palavra da Escritura e sua doutrina”.
A mesma presença do Cristo que habita a Escritura, habita também a Eucaristia. É, pois, com razão que podemos falar de uma presença real do Cristo na Palavra, tão real quanto da Eucaristia. Na sua encíclica Mysterium fidei centrada na Eucaristia, que insiste muito a propósito da presença real do Cristo na Eucaristia, Paulo VI explica que esta presença real eucarística não exclui os outros modos de presença real: “Esta presença, chamamo-la de real não a título exclusivo como se as outras presenças não fossem reais, mas, por excelência, porque ela é substancial”. Há portanto uma presença real de Cristo na Eucaristia, presença que é substancial por excelência, mas há também uma presença real do Cristo na sua Palavra, que é igualmente “real”, embora não substancial. Precisemos os dados. A presença “real” do Cristo na Eucaristia é chamada substancial: está ligada à substância do pão. Ela perdura durante todo o tempo que dura a celebração eucarística, de um lado, e, de outro, mesmo depois da celebração, tanto tempo quanto perdurem as “espécies” do pão. Na celebração da Palavra, ao contrário, a presença real do Cristo na Palavra dura tanto tempo quanto dure a celebração da Palavra, mas ela cessa quando a celebração termina e a assembleia se dispersa, permanecendo apenas no coração dos fiéis que retamente escutaram a Palavra e buscarão colocá-la em prática. Nos dois casos, entretanto, a presença do Cristo é uma presença real.
Numerosos são os pontos em comum entre o mistério da Palavra e o da Eucaristia: Em uma, o Cristo está presente sob o “véu” das palavras humanas. Noutra está presente sob o “véu” do pão e do vinho. em uma, o Espírito transfigura as palavras humanas em palavras inspiradas, fá-las aceder ao plano superior da Revelação, coloca-as no tesouro da Palavra de Deus. Noutra, este mesmo Espírito, na epiclese litúrgica, consagra o pão e o vinho em Corpo e Sangue do Cristo e os faz aceder ao domínio da criação transfigurada pela divindade. Em uma, a ressurreição de Jesus, operada pelo Espírito, torna-se o princípio primeiro da inteligência da Escritura. Noutra, esta mesma ressurreição confere seu sentido último à Eucaristia, corpo de Cristo ressuscitado e sacramento de vida pascal. Numa, a Palavra é princípio de vida eterna. “Tu tens palavras de vida eterna”, clama a fé cristã ao Cristo Jesus (Jo 6,68). Noutra, o mesmo pão vivo descido do céu destrói as fronteiras da morte e dá a vida eterna (Jo 6,51). 
“Parti o mesmo pão, escreve Inácio de Antioquia, este pão é remédio de imortalidade, antídoto contra a morte, faz viver eternamente.”

Em termos bíblicos, poderíamos desenvolver a temática acima a partir da conhecida passagem evangélica dos discípulos de Emaús.                                                               Continua...

terça-feira, 24 de abril de 2012

presença real de Cristo na Eucaristia e na Palavra - 1ª parte


Papa Paulo VI entronizando o livro dos Santos Evangelhos durante o Concílio Ecumênico Vaticano II        






Palavra e Eucaristia 
Embasamento Teológico para as implicações litúrgicas da relação entre Palavra proclamada e a celebração da Eucaristia

distinção entre "presença real" e "presença substancial" 
culto de adoração a Eucaristia; culto de veneração a Palavra 

 A Palavra de Deus é presença real de Jesus Cristo! Uma afirmação desta ordem pode surpreender. A adoração devida à Eucaristia não deve ser, ao pé da letra, incomparável? A devoção cristã não esteve sempre voltada, como que atraída, para o “Santíssimo Sacramento”? De fato, ninguém ousaria fazer uma tal afirmação se ela não tivesse sido um ensinamento explícito do Concílio Vaticano II:
            “A Igreja sempre venerou a Sagrada Escritura da mesma forma como o próprio Corpo do Senhor, ela que não cessa, sobretudo na Sagrada Liturgia, de receber o Pão da vida na mesa da Palavra e sobre a mesa do corpo do Cristo, para oferecê-lo aos fiéis” (DV 21).
A Palavra de Deus é, portanto, tão venerável quanto o Corpo Eucarístico de Jesus Cristo. Quem “comunga” da Palavra, como aquele que comunga da Eucaristia, comunga do mesmo Senhor. E a veneração que é devida à Palavra, como a que é devida à Eucaristia, é a mesma que é devida a Cristo Jesus.
De fato, o ensinamento do Vaticano II, que pode assustar – como dizíamos acima – , surpreendeu até mesmo alguns Padres conciliares. Muitas emendas foram propostas ao texto conciliar. Censuravam-no por “assemelhar muito” (nimis assimilare)  Palavra e Eucaristia. Temia-se que a veneração pela Palavra fosse fazer sombra à devoção para com a Eucaristia. Estas emendas foram todas rejeitadas. Com razão. Porque o Concílio não fazia outra coisa senão retornar o ensinamento constante da tradição e da teologia cristãs.
Neste horizonte é bom ampliar a reflexão com as palavras de Bento XVI na Verbum Domini 55, que por sua vez recorda as palavras da Introdução geral do Lecionário: “à palavra de Deus e ao mistério eucarístico a Igreja tributou, quis e estabeleceu que, sempre, e em todo lugar, se tributasse a mesma veneração embora não o mesmo culto”. Isso significa que a veneração é a mesma: Cristo presente; mas o culto é diverso, pois, enquanto na Eucaristia a presença de Cristo é substancial (a substância do pão deixa de existir para dar lugar à substancia de Cristo, mesmo permanecendo a sua forma de pão), na Palavra não. Consequência prática deste princípio teológico é a adoração que prestamos às espécies eucarísticas, presença real e substancial de Cristo; e a veneração ao livro e à palavra proclamada, que não são objetos de culto de adoração (como a Eucaristia) por não serem presença substancial, mesmo que real. Veneramos igualmente Palavra e Eucaristia por serem Cristo presente; com o diferencial culto de adoração à Eucaristia por se tornar a substância de sua presença.Esta reflexão será importantíssima para as conclusões litúrgicas que dela derivarão...   continua...

sábado, 21 de abril de 2012

A CRUZ E O MISTÉRIO PASCAL
é preciso ter uma Cruz junto ao altar? Por quê?


É de grande importância a presença de UMA cruz visível aos fiéis durante as celebrações litúrgicas.

A Celebração da Eucaristia é uma "atualização memorial", torna presente o mistério da entrega que Jesus faz de sua vida para que nós tivéssemos vida.
Seres humanos que somos, necessitados de símbolos que nos ajudem a "enxergar" o mistério que celebramos, precisamos da imagem da cruz - não para cultuarmos a imagem de um Deus morto, nem mesmo para nos prendermos apenas ao aspecto do sofrimento, da dor e da morte, mas para visibilizar a "entrega" do Senhor: "assim como eu vos amei, também vós devereis vos amar uns aos outros", com a mesma radicalidade, abraçando até as últimas consequências de fidelidade ao projeto do Pai ao nosso respeito, porque "Ele nos amou por primeiro!". Só conseguirá amar como Ele amou, aquele que se aproximar da ceia eucarística. Por isso o altar, que também é símbolo da cruz - pois nele o Senhor continua a se entregar a nós - também é sinal de banquete de festa, de alegre refeição ao redor do Mestre que nos orienta, corrige e alimenta pela celebração eucarística (com as "mesas" da Palavra e do Pão Eucarístico).

Logo, a cruz e o altar deverão, pelo seu formato, pela sua proximidade e pelo seu uso, recordar estas duas realidades que não se excluem mas se complementam: é a paixão salvadora e amorosa do Salvador que se atualiza no altar (para se atualizar também em nossa vida); é a ceia, banquete, a Festa da Vida que nos revigora em nosso compromisso de vivermos aquilo que no altar celebramos: a Páscoa de Cristo que deverá fortalecer as nossas diversas Páscoas (as passagens do pecado para a graça; do egoísmo para a amizade desinteressada; do individualismo para a alteridade, etc.)


Consequências práticas...
O mistério pascal é único, assim como deve ser único o sinal que o recorda. É errôneo manter em um mesmo espaço celebrativo mais de uma cruz. Até mesmo um costume que se tem popularizado de "uma cruz voltada para o povo, uma cruz voltada para o padre" é uma prática equivocada, e pesa a favor deste argumento os princípios celebrativos da Igreja de Roma: uma única cruz, e esta, no caso da liturgia daquela Igreja, voltada para quem preside. A cruz processional, ao término de sua função - abrir a procissão de abertura da celebração - é recolhida. 
Pesam também a favor deste argumento os princípios enunciados nos documentos da Igreja. Ei-los:

Cerimonial dos Bispos, cerimonial da Igreja (129): ao tratar da cruz processional: "É de louvar que a cruz processional fique erguida junto do altar; de modo a ser a própria cruz do altar [e, consequentemente, única no espaço celebrativo]; caso contrário [se há uma outra cruz presente neste espaço], a cruz processional será retirada.

Introdução geral do Missal Romano  
(268): ao tratar da celebração Eucarística como banquete: "Em reverência para com a celebração do memorial do Senhor e o Banquete em que se comungam o seu Corpo e o seu Sangue, ponha-se sobre o altar ao menos uma toalha, que combne, por seu formato, tamanho e decoração, com a forma do mesmo altar". Interessante neste tópico que se respeite o formato do altar. O que é mais importante: o altar ou a toalha que sobre ele se coloca? Logo, a toalha precisa valorizar o altar, nunca escondê-lo. A simplicidade é mais eloquente do que o esbanjamento.

(269): ao tratar dos castiçais sobre ou junto ao altar: "Os castiçais requeridos pelas ações litúrgicas para manifestarem nossa reverência e o caráter festivo da celebração, sejam colocados, como parecer melhor: sobre o altar ou junto dele, levando em conta as proporções do altar e do presbitério, de modo a formarem um conjunto harmonioso e que não impeça os fiéis de verem aquilo que se realiza ou se coloca sobre o altar". Uma coisa é ter uma igreja, um presbítério e um altar com as dimensões da basílica vaticana ou a catedral de Taubaté; outra coisa é termos um altar mais modesto em dimensões e que necessita de uma toalha, castiçais e cruz que também respeitem a característica própria daquele espaço celebrativo. Bom senso é sumamente necessário para se discernir: quantidade de castiçais, o tamanho dos mesmos e também a sua posição: sobre o altar ou ao seu redor. Os critérios que deverão nortear a opção feita nunca poderão ser o gosto pessoal do responsável da comunidade ou "modismos litúrgicos" seja da atualidade ou seja do passado. O nº 269 da IGMR nos apresenta tais critérios: "formar um conjunto harmonioso" e "não impedir os fiéis de verem aquilo que se realiza ou se coloca sobre o altar": Evangeliário, pão e vinho. 
Quanto ao número de castiçais, a IGMR também apresenta suas recomendações: (79) "Sobre o altar ou ao seu redor, coloquem-se no mínimo 2 castiçaiscom velas acesas, ou então quatro ou seis. Quando celebrar o Bispo diocesano, colocam-se sete. Haja também uma cruz sobre o altar ou perto dele. Os castiçais e a cruz podem ser trazidos na procissão de entrada". Ou seja, para a celebração da Eucaristia, prescreve-se 2 velas. Se a estrutura da igreja, presbitério e altar permitir, nas solenidades maiores, pode-se colocar 4 ou 6 velas, seja sobre, seja próximo ao altar. Sete velas deverá ser colocada somente quando o Bispo diocesano presidir - honrando a plenitude do sacerdócio de Cristo presente nele. Contudo, se a estrutura do espaço celebrativo não permite, prefira-se a bela sobriedade de apenas 2 velas mesmo com a presença do Bispo do que 7 velas que escondem a beleza do local e do mistério que aí se celebra.  


(270): ao tratar da cruz: "Haja também sobre o altar ou perto dele UMA cruz que seja bem visível para a assembleia reunida". Mais uma vez recorde-se a "regra de ouro" do bom senso: Haja UMA única cruz no espaço celebrativo, e que esta seja valorizada, seja por suas dimensões - sempre buscando o equilíbrio com todo o espaço e demais objetos nele presentes - e que esteja ou sobre o altar, ou perto dele.
O nº 236 da IGMR ainda prescreve que "se a cruz estiver sobre o altar ou junto dele [logo, NUNCA uma cruz "sobre" o altar e outra "junto dele", mas sempre "ou" sobre, "ou" perto], é incensada antes do altar; se estiver atrás dele, o sacerdote a incensa quando passa diante dela". 

Anunciamos, Senhor, a vossa morte, e proclamamos a vossa ressurreição. Vinde Senhor Jesus!

quinta-feira, 19 de abril de 2012

O "Aleluia Pascal" - sentido espiritual


O Aleluia Pascal
“Podemos considerar duas fases da nossa existência: a primeira, que acontece agora em meio às tentações e dificuldades da vida presente; e a segunda, que virá depois, na segurança e alegria eterna. Por isso, foram instituídas para nós duas celebrações: a do tempo antes da Páscoa (quaresma) e a do tempo depois da Páscoa.
O tempo antes da Páscoa representa as tribulações que passamos nesta vida. O que celebramos depois da Páscoa, significa a felicidade que alcançamos na vida futura. Portanto, antes da Páscoa celebramos o que estamos vivendo; depois da Páscoa celebramos o que viveremos. Eis por que passamos o primeiro tempo em jejuns e orações; no segundo, porém, que estamos celebrando, deixando os jejuns, nos dedicamos ao louvor de Deus. É este o significado do Aleluia que cantamos.
Em Cristo, nossa cabeça, ambos os tempos foram figurados e manifestados. A paixão do Senhor mostra-nos as dificuldades da vida presente, em que é preciso trabalhar, sofrer e por fim morrer. A ressurreição e glorificação do Senhor nos revelam a vida que um dia nos será dada.
Agora, pois, irmãos, vos exortamos a louvar a Deus. É isto o que todos nós exprimimos mutuamente quando cantamos: Aleluia. Louvai o Senhor! Dizemos nós uns aos outros. E assim todos põem em prática aquilo que se exortam mutuamente. Mas louvai-o com todas as vossas forças, não só com a língua e a voz, mas também com a vossa consciência, vossa vida, vossas ações.
Na verdade, louvamos a Deus quando nos encontramos reunidos na igreja. Mas logo ao voltarmos para casa, parece que deixamos de louvá-lo. Não deixes de viver santamente e louvarás sempre a Deus. Deixas de louvá-lo quando te afastas da justiça e do que lhe agrada. Mas se nunca te desviares do bom caminho, ainda que tua língua se cale, tua vida clamará; e o ouvido de Deus estará perto do teu coração. Porque assim como nossos ouvidos escutam nossas palavras, assim os ouvidos de Deus escutam nossos pensamentos".

Dos Comentários sobre os salmos, 
de Santo Agostinho, bispo.

Encontro Diocesano de Liturgia
“A Palavra de Deus celebrada” - Laboratório Litúrgico e uso do Data-show.

Aos coordenadores de liturgia e canto ritual de nossas paróquias e comunidades maiores,
e aos responsáveis pelo uso do "data-show" nas celebrações litúrgicas.


Convite para a celebração de instituição de ministérios do Leitorado e Acolitato

Aos amigos da Comissão Diocesana de Liturgia, fazemos especial menção ao seminarista Diego, conhecido de todos pelo seu estágio pastoral realizado já a alguns anos com a pastoral litúrgica da Diocese e que receberá o ministério do Acolitato. Participe deste momento da nossa Igreja de Taubaté.
Reze pelos seminaristas de nossa Igreja Particular.

03 de maio de 2012
19h
Igreja matriz de Santa Luzia - Taubaté

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Missa de Domingo é igual às missas feriais?


Por que o Domingo é tão importante?



O “primeiro dia da semana” tornou-se dia do Senhor – Domingo. Portanto, agora é do Senhor este dia! Isto significa: Este é um dia especial, "primordial", no dizer do Concílio Vaticano II (SC 106), em que as comunidades cristãs, reunidas em assembleia, fazem esta experiência: O Senhor Jesus Cristo está vivo em nós, como diz São Jerônimo, cheio de entusiasmo: “O Domingo é o dia da ressurreição, o dia dos cristãos; é o nosso dia".

Como celebramos este dia semanal da Páscoa, chamado Domingo? Pelo descanso, pelo lazer, pela diversão – pois Jesus Ressuscitado se faz presente na vida de seus amigos por meio de todas estas realidades – e, sobretudo, pela Eucaristia, pois nela celebramos precisamente a memória daquilo é a essência mesma do dia do Senhor: Páscoa!... “Anunciamos, Senhor, a vossa morte, e proclamamos a vossa ressurreição...”. É neste dia que Jesus continua a nos falar mediante a Palavra proclamada.  Neste dia os cristãos celebram a sua páscoa semanal, também pelo repouso, pois, pelo repouso dominical, que renova nossas energias, celebramos (evocamos, simbolizamos) o repouso total que a Páscoa de Cristo nos garantiu a partir deste dia. Por fim, celebramos este dia como um dia de festa, por ser o dia mais bonito da semana: dia do Sol verdadeiro, dia da eternidade, dia do Espírito Santo que reúne e anima nossas assembleias, dia do Evangelho e da evangelização, dia da solidariedade pela visita aos doentes e participação em mutirões, dia da própria natureza em festa recebendo nossa visita[1].
O domingo é tão especial que a celebração da eucaristia desse dia se reveste de uma solenidade maior que a mesma eucaristia celebrada durante a semana. Os ritos iniciais e os ritos próprios da Liturgia da Palavra da celebração dominical externalizam a distinção que deve haver entre missa dominical e missa ferial. Eis, pois, os ritos que distinguem a celebração solene da Eucaristia do Domingo dos demais dias de semana segundo a Introdução Geral do Missal Romano a Introdução Geral do Elenco das Leituras da Missa e a Exortação Apostólica Verbum Domini de Bento XVI:
v           Procissão do Evangeliário durante a abertura da celebração e sua deposição sobre o altar, seja pelo diácono, seja pelo leitor, diferindo das missas feriais que não apresentam este rito, visto que o Evangeliário contém apenas os Evangelhos dos domingos, solenidades e festas;
v           Eventualmente o rito de aspersão que, aos domingos, poderá substituir o ato penitencial;
v           Canto do Glória exclusivamente aos Domingos – exceto nos tempos penitenciais – solenidades e festas, logo, erroneamente entoado nas missas feriais;
v           Mesa da Palavra mais “abundante”, com 3 leituras, diferindo das missas feriais que apresentam apenas a 1ª leitura e o Evangelho;
v           A conclusão Palavra do Senhor das leituras, com sua resposta, seja cantada pelo mesmo leitor ou mesmo por outro ministro, afim da assembleia honrar a palavra de Deus recebida;
v           Procissão com o Evangeliário durante o canto do aleluia, transladado do altar ao ambão pelo diácono ou, na falta deste, por um concelebrante ou então pelo próprio presidente da celebração;
v           Homilia mais esmeradamente preparada;
v           Profissão de fé;
v           Oração dos fiéis;
v           Momentos de silêncio após as leituras, o Evangelho e a homilia;
 Com uma correta valorização da missa dominical por meio da celebração de cada rito próprio deste dia solene, far-se-á a necessária distinção das celebrações feriais, mais sucintas, como convém a uma assembleia composta em sua maioria de cristãos que procuram conciliar uma vida de espiritualidade com as demais realidades de família, trabalho, estudo, e que, por todos estes motivos, também terão o alento de uma celebração eucarística mais rápida no decorrer da semana.
Todavia, não se pretende aumentar a importância dos ritos nem colocá-los num pedestal de honra. São apenas ritos: eles valem, portanto, pela devoção interior que os inventa, que os realiza, ou que eles suscitam. Uma celebração pode alcançar plenamente sua finalidade – a Aliança com Deus – sem nenhuma cerimônia ritual, como também sem nenhum canto ou música. Porém, canto, música e ritos não só podem como nos aproximam de Deus. Eis o que dá fundamento à dignidade dos ritos. 




[1] Frei José Ariovaldo da Silva, OFM